Dois ex-presidentes na cadeia e a convicção de que ainda é pouco.

Há exatamente um ano escrevi esse post, ironizando o fato de o estado do Rio de Janeiro ter simultaneamente quatro ex-governadores atrás das grades.

E não é que nesse período a justiça colocou na cadeia dois ex-presidentes?

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Não tenho conseguido ver nisso algo cômico, nem uma imensa conquista nacional. Apenas vejo a questão sob o ponto de vista trágico.

É absolutamente decepcionante ver o quanto o poder tem sido usurpado por quem deve respeito à coletividade.

A democracia é uma forma de governo com vantagens sobre as demais, mas aceitemos suas limitações. A representatividade deve ter braço curto. Sabemos que quanto mais distantes um do outro, representante e representado, menos controle haverá e... menos escrúpulo sobrará por aquele que recebe o poder delegado.

O Brasil tem essa imensidão de ladrão, gente desonesta no poder, porque essas pessoas nunca viram quem estão prejudicando, nem quem lhes paga o salário régio. São "representantes" que a cada 4 anos sobem em palanques e fingem ouvir eleitores.

A democracia representativa apenas funciona se o representado consegue encontrar e falar com seu representante sempre que precisar. A tecnologia hoje permite isso, mas os governantes e legisladores brasileiros impedem uma maior proximidade.

Veja-se o exemplo da Cidade Administrativa de Minas Gerais, aquele monumento à incompetência gerencial e financeira, incluindo a arquitetônica.

O funcionalismo abomina quase tudo no projeto: da luminosidade ao ar condicionado ineficiente, passando pelos quilômetros para se cruzar de uma secretaria à outra ou acessar-se o estacionamento dos visitantes.

A Cidade Administrativa saiu da região central da cidade, onde ficava ao alcance dos olhos e da voz dos cidadãos, para ganhar um lugar afastado, mal servido por transporte público e de inviável acesso dependendo do dia e da hora. Seguiu os mesmos passos de Brasília: distante do povo, encastelado.

Uma montanha de dinheiro foi jogada no lixo por um capricho individual de Aécio, em detrimento da população mineira que continuará pagando o preço dessa decisão equivocada por gerações.

A Cidade Administrativa é um exemplo conveniente da usurpação de poder por governantes que esquivam-se, afastam-se dos olhares populares, certamente para agirem por detrás de obstáculos, sendo difícil lhes fiscalizar e acessar.

Estivesse o poder próximo daquele que o delega, como previsto em qualquer lei fundamental ("emana do e para o povo"), não teríamos tantos ex-governantes presos. 

E isso sem contar os que virão nos próximos meses ou anos, pois sabemos que os crimes tem sido muitos, fantando gente suficiente para investigar.

Passou da hora de o voto distrital e a proximidade entre representante e cidadão serem resgatados.

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