Semanas e a entrega dos Cinco Livros
Essa semana comemora-se a entrega da Torá por D'us ao seu povo, no Monte Sinai.
Isso é mais que uma celebração.
Trata-se de reviver a união entre um povo que recebeu Mandamentos visando conter a barbárie humana, os impulsos instintivos, constituindo um exercício civilizatório.
Por essa razão, em Shavuot são lidos os 10 Mandamentos nas sinagogas mundo afora.
É invocada a base ética e espiritual da civilização judaica e, por consequência, cristã (que denominam essa época como Pentecostes).
A revelação das regras de convivência respeitosa tem um significado imenso, sendo medidas protetivas entre seres humanos.
Os Mandamentos possuem imperativos negativos representados pela palavra NÃO.
Somos livres para fazermos o que desejamos, celebrando nosso livre arbítrio, desde que contidas nossas pulsões, restringidos nossos desejos mais destrutivos.
O preço à liberdade em sociedade é conduzir uma vida ética.
E os 10 Mandamentos são o guia básico, a partir do qual, se observados em toda latitude, significado e orientações de sábios, permitiram que uma civilização milenar se perpetuasse a despeito de imensas adversidades.
São eles:
1. Sou o Senhor, teu D'us, tirei-te da escravidão
Isso significa que não se pode servir a dois mestres.
Apenas um mestre, nesse caso repleto de valores éticos unificados, pode ser seguido.
Esse Mandamento exige coerência e coesão visando uma duradoura coexistência entre humanos, física e espiritual.
2. Não terás outros deuses, nem farás para ti imagem de escultura, ou semelhança do que há nos céus, embaixo da terra ou águas subterrâneas, não te prostrando diante de imagens, nem as servirás
Um dos ordenamentos é condenar a idolatria.
O mundo é feito para a convivência humana e os princípios não devem ser personificados, personagens não podem ser adorados.
Isso porque o ideal humano não se personifica: os princípios e as leis são impessoais e precisam ser assim mantidos.
3. Não tomarás o nome de D'us em vão
Jurar em nome d'Ele para obter vantagens, manipular a espiritualidade ou o desespero invocando força superior, é desagregador e deve ser condenado com todas as forças.
Falsos profetas, muitas vezes travestidos em políticos, jornalistas, professores e outros profissionais, invocam palavras sagradas conquistando mentes e desorientando espíritos. Guardar distância dessas pessoas é mecanismo eficiente de defesa para proteger a alma e a ética.
4. Santifique o Shabbat, dia do Senhor
Ter um dia de descanso para refletir e aproximar-se de objetivos divinos, ideais, tem uma importância não apenas física (já que a pausa semanal não existia antes da revelação da Torá), mas também espiritual.
O Shabbat é um momento de revisitar conceitos fundamentais, encontrar próximos, estudar e comemorar comendo junto.
A pausa semanal é um princípio fundamental judaico-cristão.
5. Honra teu pai e tua mãe
Essa ordem é fundamental para guardar dignidade e respeito na relação entre gerações.
Ela reconhece os sacrifícios e a dedicação amorosa dos pais aos filhos.
Ainda que em períodos confusos e conturbados os filhos afastem-se dos pais, influenciados por hormônios, más influências ou ideologias desagregadoras, a unidade familiar é fundamental para a progressão humana.
A família é a única célula de amor incondicional.
6. Não matarás
O assassinato físico é horrendo e deve ser condenado, como regra geral.
Não matarás o nascituro, a vida intra-uterina, o idoso, o deficiente físico, o depressivo, o dissidente político ou religioso.
Tal Mandamento pode ser ampliado exigindo estender dignidade a todas as criaturas vivas.
A vida humana é sagrada pois é espelho de D'us, projeção do ideal que precisa ser preservado.
Quem salva uma vida, na tradição judaica, é como se estivesse salvando 1.000 vidas.
Esse mandamento não é incompatível com a auto-defesa. Várias exceções se aplicam, sobretudo compreendendo-se que ainda há pessoas comprometidas com o genocídio judaico - não se limitando apenas às atrocidades do Holocausto e do 7 de Outubro de 2023.
7. Não cometerás adultério
Novamente, a família é o centro do universo em que a aliança precisa se basear na confiança mútua.
Por conseguinte, sedimenta o conceito de que a vida sexual é importante e precisa integrar o compromisso matrimonial.
O matrimônio implica direitos e obrigações, dentre as quais se insere a proibição ao adultério.
8. Não roubarás
Esse Mandamento ético visa respeitar o esforço do trabalho alheio, que não pode ser apropriado sem anuência.
Da mesma forma há bens imateriais, como o tempo, que não poderia ser roubado.
Poupar uma geração da prosperidade, harmonia social, paz ou esperança é um pecado infelizmente praticado por muitos líderes políticos ou empresariais.
Reconhecer a propriedade privada como algo sagrado a ser respeitado é a base da prosperidade que a cultura judaico-cristã proporcionou ao mundo. É algo comemorado até hoje por aqueles que sabem enxergar nas doutrinas comunistas, socialistas, nas bases do marxismo, a destruição do estímulo à prosperidade e à honestidade, pois no fundo todo comunista é um ladrão que inveja bens dos outros e deseja lhes expropriar, remetendo ainda ao décimo Mandamento.
9. Não levantarás falso testemunho contra teu próximo
A mentira destrutiva, maligna, é um dos piores pecados possíveis.
A destruição de reputações é crime odioso, já que a verdade é o pilar da sociedade humana, condição fundamental para que esta se perpetue, ao invés de perecer.
Ao se violar a verdade, destrói-se o mundo pouco a pouco, começando por pessoas, depois comunidades... lembrar disso, sobretudo em tempos de mídia social e de imprensa repleta de desinformação ou informações falseadas para agradar correntes políticas, é importante.
Os judeus lutam contra a desinformação que atinge suas comunidades e Israel. O falso testemunho e a invenção transforma vítima em algoz nas mídias, nas escolas, na academia. A defesa da verdade, a maior delas a revelação das atrocidades cometidas por palestinos em 7 de outubro de 2023 é uma obrigação aos que se desejam éticos. Tais fatos não podem ser escondidos ou falsificados, nem se podem proibir vítimas e testemunhas de informarem ao público em todos os espaços, sobretudos escolas e universidades. A memória das vítimas exige dignidade e apenas com os fatos divulgados, conhecidos, pode-se aprender sobre a maldade imensa e fazer o bem prevalecer.
10. Não cobiçarás a casa ou a mulher do teu próximo, nem bens que lhe pertençam
A inveja é um veneno que consome a alma.
É interessante notar que esse Mandamento condena o desejo, e não somente o ato.
Desejar já é um pecado, pois pensar na posse de bens ou mesmo pessoas que são queridos ou detidos por outra pessoa denota inveja, intenção em destruir relações para ganho puramente egoísta, narcisista.
Purificar-se permite valorizar-se a si mesmo, pois ao mesmo tempo valoriza o que o outro conquistou.
A prosperidade do próximo exige ser comemorada: respeitar o sucesso honesto e fruto do trabalho de todas as pessoas é fundamental para fomentar o desejo próprio de prosperar.
Em tal momento de reflexão, restabelecer a conexão entre a revelação do Monte Sinai e o povo judeu, ampliado ao povo cristão, parece-me sempre válida se queremos construir algo próximo do sonhado paraíso.
