Clamor à normalidade

 



Na escala de necessidades, as pessoas precisam de alimento, abrigo, serem úteis por meio de uma ocupação e, a partir do momento em que dispõem de certa tranquilidade dentro da dignidade, almejam prosperar.

 

A evolução pode se dar por meio do aprimoramento de um ofício, de uma ocupação, inclusive por meio de estudos e da obtenção de conhecimentos, muitas vezes representados por um diploma.

 

Até recentemente, estudar era quase uma garantia de melhores salários, já que entender melhor o mundo e ampliar os conhecimentos permite enxergar coisas que a maioria das pessoas não enxerga ou não consegue organizar, gerando uma vantagem competitiva para cargos melhores ou postos decisórios.

 

O diploma, no entanto, jamais foi garantia de melhores empregos ou salários. Ele pode abrir portas, mas não garante o desempenho que só vem do conhecimento real — e não de um pedaço de papel.

 

O mundo é um lugar fascinante, repleto de complexidades que geram imensas oportunidades em todas as dimensões. Ocorre que a grande maioria das pessoas ainda se encontra numa escala muito baixa de atendimento de suas necessidades básicas: elas querem ter acesso a boa alimentação, abrigo, tranquilidade, diversão e oportunidades.

 

Meu ponto é o seguinte: a esmagadora maioria das pessoas no mundo não está nem um pouco interessada em teorias ou ideologias mirabolantes que pretendam alterar fundamentalmente sua vida ou interpretar, sob ângulos artificiais, sua existência e suas necessidades.
É por isso que a maioria das teorias malucas e ideologias só prospera pela força, por algum modismo passageiro ou por adesão forçada — ainda que psicológica, quando a violência física não se impõe.

 

Quando observo as inúmeras ideologias em voga — como as identitárias, de gênero ou o feminismo radical —, constato que são pequenos grupos, com acesso a gente poderosa e recursos públicos, que fazem muito barulho e mantêm suas pautas constantemente visíveis, mas com quase nenhum eco ou importância real para a maioria do mundo.

 

O mundo clama por normalidade. 

 

Por estabilidade.

 

E é por isso que essas teorias, ideologias e seus ativistas (malucos ou comportados), muitas vezes catapultados a altos cargos, fazem tanto barulho, enriquecem, destroem vidas de pessoas comuns — tudo em defesa de causas que, no final das contas, não têm importância nenhuma para a coletividade.

 

E por que escrevo esta reflexão?

 

Porque, se constatarmos que a decadência das mídias tradicionais e da academia é um fato inegável, veremos que ela ocorre exatamente pelo motivo acima: a desvalorização do ordinário, do comum, torna mídias e academias cada vez mais desnecessárias — para grande tristeza daqueles que ainda enxergam o papel institucional que ambas deveriam exercer.
Por mais que agitadores, ativistas e ideólogos articulados pressionem e tentem impor seus conceitos, leis e regras, é certo que a imensa maioria das pessoas permanece indiferente, pois não compartilha da origem nem legitima o que esses ferozes agitadores desejam fazer.
O problema não para por aí. 

 

A consequência real dos atos desses desorganizadores sociais é o que mais prejudica: eles aumentam o custo de vida, desviam impostos para causas e organizações que só servem ao próprio benefício, sem qualquer impacto relevante para a coletividade.
A consciência de que a normalidade deve ser perseguida, que o ordinário é a regra, trazendo novamente ao centro as questões realmente relevantes e deixando os assuntos marginais onde eles devem permanecer, é a única via para a harmonia social.

 

Sem isso, estamos vendo o rabo abanar o cachorro, em desperdícios e desmandos desarticuladores.



 

 

Sim, nossas democracias são profundamente falseadas, sobretudo quando servem apenas para alimentar máquinas partidárias poderosas. 

 

Ainda assim, possivelmente será pela via de dar voz à maioria — manifestando-se ou não (o voto é apenas um detalhe, assim como o diploma não prova quase nada sobre conhecimento real) — que a correção de rota acontecerá, colocando à margem o ativismo que hoje desvia a atenção dos assuntos realmente importantes.

 

Quando atores relevantes da mídia e da academia se conscientizarem disso e eliminarem o ativismo militante e os desonestos (muitas vezes personagens coincidentes), a satisfação geral prevalecerá...


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