Não escondo minha admiração por Felipe Moura Brasil, para mim um dos melhores jornalistas políticos do país. Ele publicou no X e desejo registrar aqui, já que nunca fui bolsonarista, mas desde 2003 tornei-me um aguerrido anti-Lulista e anti-petista (aliás, anti-esquerdas latino-americanas que se provaram bandidos, anti-democratas, etc.) e, diante do dilema nas eleições, é claro que votei no capitão versus o bandido condenado, pelego.
Transcrição:
A narrativa de que Jair Bolsonaro está sendo “traído” pelos filhos, que apoiam político do Centrão para o Senado, é uma tentativa de salvar a imagem de “direitista” do patriarca da família, que já disse com todas as letras, em 2021, durante seu governo: “Eu sou do Centrão.”
Quando a maioria das condutas de determinado grupo contraria um conceito teórico - como o de direita - utilizado para organizar e classificar posições políticas e ideológicas, qualquer pessoa sã, que não tenha sido abduzida para a bolha de propaganda enganosa do grupo, utiliza ou passa a utilizar outro(s) conceito(s) para classificá-lo, em vez de incorrer em sucessivos malabarismos e contorcionismos para encaixá-lo no original.
Entre os propagandistas do bolsonarismo, existe uma ala que atua como estrategista do embate com a esquerda e que, por isso mesmo, busca preservar o verniz de “direitismo” do líder preso, eventualmente criticando até seus filhos, como se eles não estivessem repetindo atos do pai - o maior cabo eleitoral do Centrão na última década, inclusive de líderes do bloco parlamentar como seu ex-ministro Ciro Nogueira, Arthur Lira e Davi Alcolumbre. Isto sem falar na parceria familiar com o dono do PL, Valdemar Costa Neto, condenado em 2012 a 7 anos e 10 meses de prisão, além de multa de R$ 1,08 milhão, no caso do mensalão do PT. “O réu profissionalizou o modo de recebimento da propina”, afirmou o relator Joaquim Barbosa, então ministro do STF.
Com partidos como PL, Republicanos, PP, PSD, União Brasil, MDB, Podemos, Solidariedade e Avante, o Centrão é historicamente marcado por fisiologismo, patrimonialismo, lobismo, rabo-preso, corporativismo e abertura conveniente ao conchavo-geral da República do Escambo, especialmente após escândalos de corrupção e lavagem de dinheiro, como no mensalão e no petrolão, e/ou peculato, como nas “rachadinhas” de gabinete, investigadas em desdobramentos da Lava Jato, entre outras operações.
Gelatinoso, sem compromissos programáticos claros, o bloco parlamentar comporta políticos com retórica eleitoral de centro, esquerda, direita, militarismo anticomunista, antissistema, ou de oscilação esporádica entre vários desses campos conforme a conveniência do momento. Em comum entre todos eles, está o fato de que seus discursos servem geralmente de fachada para as citadas práticas definidoras e unificadoras das diferentes alas de Centrão, sempre votando por privilégios e blindagens.
Jair Bolsonaro era um deputado federal desse bloco com uma retórica menos comum a ele, o que até hoje rende confusões sobre seu lugar no espectro político: tinha um discurso pró-ditadura militar anticomunista, com posições tão estatizantes quanto às da esquerda lulista, chamando de “barbaridade” um par de privatizações do então presidente FHC, do PSDB.
Essas posições só foram parcial e retoricamente moduladas quando a família Bolsonaro buscou surfar a confluência de fatores que, sem participação relevante de seus membros, levou ao impeachment de Dilma Rousseff e à prisão de Lula: forte crise econômica decorrente das velhas políticas do PT, fraudes fiscais reveladas pelo Ministério Público de Contas, corrupção sistêmica desvendada pela Lava Jato, movimentos de rua liderados por jovens do MBL e do Vem Pra Rua, fortalecimento de ideias liberais e conservadoras em livros e na internet, consolidando massa crítica à esquerda, inclusive ao estatismo defendido por Jair Bolsonaro.
No vácuo de opositores políticos, ele então vestiu a roupa, absolutamente estranha às práticas de seu bloco e de seus gabinetes, de liberal e combatente da corrupção, e explorou seu apego às Forças Armadas como defesa da ordem em um país desgovernado, ecoando posições majoritárias do povo contra a legalização de drogas e aborto, e a favor de penas mais duras para criminosos, que já vinham sendo apontadas em pesquisas de opinião havia décadas.
No poder, como é próprio do Centrão, Jair Bolsonaro se uniu ao sistema para blindar a família contra investigações de funcionalismo fantasma e compra de imóveis com dinheiro vivo, colaborando para a sabotagem da Lava Jato e da CPI da Lava Toga, além da farra parlamentar com orçamento secreto. E, como não é próprio das alas tradicionais do Centrão, além de ter aloprado na pandemia, tentou disfarçar esses estelionatos eleitorais vociferando contra urnas eletrônicas e o TSE, não sem instigar seu entorno a fazer o mesmo.
Como o sistema tolera desvios de dinheiro, mas não articulação com militares nem quebra-quebra de ativistas para reverter resultado eleitoral, o rabo-preso familiar das rachadinhas acabou trocado pelo rabo-preso literal e multitudinário do 8/1, incluindo o dele.
Em prisão domiciliar, o radical do Centrão precisava de um político tradicional do Centrão, da confiança dele, para se eleger presidente e fazer os escambos necessários à sua libertação, não necessariamente nessa ordem. Então escolheu o que já tinha em casa, Flávio, filho do qual espera, para soltá-lo, o mesmo esforço que o pai fez para impedir que ele fosse preso. Jair Bolsonaro, além das ingerências sobre a Receita e a Polícia Federal, sancionou até lei em 2022 para que Flávio pudesse justificar a origem da fortuna usada para pagar sua mansão alegando ter fechado verbalmente contratos como advogado. Ele então passou a dizer que fatura mais como advogado que como político.
Em junho de 2024, Flávio aparentemente faturou. Foi contratado para a defesa de um ex-diretor que cobrava direitos trabalhistas de um banco de investimentos, em processo que corria no STF. Kassio Nunes Marques, indicado por seu pai com aval dele e de Ciro Nogueira, então mudou seu voto anterior dado no mesmo processo e, assim como Dias Toffoli, concordou com o recurso do cliente de Flávio, formando maioria na Turma.
Em meio ao escândalo Master, que atingiu Toffoli e Alexandre de Moraes, a ideia de que alguém com o perfil de Flávio vá combater o lobby judicial em Brasília é tão disparatada quanto a de que indicar Nunes Marques ao STF ou apoiar André do Prado para o Senado são meros “erros” de uma família de “direita”, e não escolhas intencionais e típicas de uma família do Centrão, onde ganância e ambição de poder prevalecem a qualquer coerência com o próprio discurso.
A transferência automática para o debate público do Brasil do modo americano de aplicar a grupos políticos os conceitos de direita e esquerda, com base em um sistema partidário binário, elimina as nuances do sistema multipartidário brasileiro, ainda mais com o superpoder adquirido nos últimos anos pelo Congresso em razão da própria fragilidade de presidentes que apelam ao “toma lá, dá cá” para evitar processos de impeachment.
Buscar precisão na forma de expressar a realidade do país é uma tarefa jornalística e intelectual, com frequência contrária aos objetivos da propaganda política de adaptar a realidade a uma expressão pré-concebida, seja para enobrecer o próprio grupo, seja para demonizar o oposto ou se limpar na sujeira dele.
A esquerda lulista (de partidos como PT, PSOL, PCdoB e PSB) e o Centrão bolsonarista (de partidos como PL e Republicanos) têm potenciais concorrentes à sua direita na corrida eleitoral de 2026, de estilos, matizes e trajetórias diferentes, como Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão), além de Ronaldo Caiado (PSD), embora este último esteja vinculado a um partido do Centrão e seja menos ideológico. Ideologia, assim como o simulacro dela, não traz decência a ninguém, apenas um “vestido de ideias” que precisa ser verificado em atos concretos.
Centrão e moderação tampouco são sinônimos. É possível ser esquerdista moderado, direitista moderado, assim como radical do Centrão. Ser moderado é agir com equilíbrio, comedimento e prudência (aliás, a virtude primária do pensamento conversador, na tradição hoje vilipendiada de Edmund Burke), evitando incorrer em excessos, o que não significa fugir à firmeza e à incisividade no combate aos males. No Brasil, confunde-se moderação com adesão a conchavos, porque estes são feitos em nome do “diálogo” e da “harmonia”. Mas o oposto do golpe de Estado não é o conchavo-geral da República, que varre a sujeira para baixo do tapete. O oposto do general Mário Fernandes, autor confesso do plano “Punhal Verde Amarelo”, não é Flávio Bolsonaro, sabotador da Lava Toga.
É preciso distinguir, ainda, as posturas golpista e antissistema. A primeira, mesmo sem conseguir, busca solapar ou derrubar o regime democrático; a segunda busca combater pelas vias democráticas a casta dos intocáveis que abrange as cúpulas dos Três Poderes, órgãos de Estado, elites econômicas, acadêmicas e midiáticas, e que solapam esse regime com escambos entre seus integrantes.
O bolsonarismo também contribuiu para a confusão entre esses dois conceitos, porque adotou (ou surfou em) um discurso antissistema que jamais se tornou postura na prática e, depois, sua ala mais radical e aloprada invadiu e depredou prédios dos Três Poderes no 8/1. Editoriais de jornais deveriam, no entanto, fazer a devida distinção, até porque tratar toda postura antissistema como golpismo é a tática do sistema, sobretudo do Centrão do STF, para se blindar contra investigações.
Nenhum país resolve seus problemas se não sabe, antes, identificar e nomear os elementos nele envolvidos e as forças que atuam para a sua manutenção. A confusão de categorias aprisiona a vida mental dos brasileiros, trazendo sucessivamente os efeitos indesejados de suas escolhas individuais e coletivas. E esses efeitos são sempre explicados por propagandistas políticos e interpretados por massas de manobra como atos de “traição” de todos, menos do líder em quem, cegamente, elas acreditaram.