Brasil é África
(republicado do blog Substack 17/02/2026)
Retrato do extrato populacional
O censo brasileiro de 1872 revelou dados que influenciariam o país muito além apenas dos 100 anos seguintes. Foi a bússola que definiu a estrutura de poder, social, econômica e geográfica do país. A fórmula ainda persiste.
Naquele momento, o Brasil tinha quase 10 milhões habitantes: 10% dos quais apenas residindo em cidades. O Brasil era rural, absolutamente ignorante, subserviente, com 1,5 milhão de escravos (cuja importação da África havia acabado com a Lei Eusébio de Queiroz em 1850) e quase 6 milhões de pretos e pardos miseráveis, em sua maioria esmagadora.
Os 38% dos brancos no país, à época, estavam longe de serem apenas senhores de engenho. A maioria era pobre.
O problema - em uma época em que atuais círculos pseudo-intelectuais de bastante influência reputam ter sido ocupado por povos indígenas (menos de 4% da população à época) ou escravos e ex-escravos - não era, ou é, a etnia.
A etnia jamais foi o real problema nacional, a despeito das bandeiras identitárias promovidas furiosamente pela esquerda política.
O problema era e sempre foi o abismo entre ricos e pobres, poderosos e subservientes; ou usando da nomenclatura medieval: entre reis e nobres versus a plebe sem direitos ou dignidade.
O interessante censo de 1872 também explica que a maior parte da população era lavradora ou dedicava-se a serviços domésticos (ou ainda costureiras para a maioria das mulheres), com insignificante número de pessoas no comércio ou em profissões liberais.
O analfabetismo situava-se em torno de 80%, em 1872.
O novo europeu
A Lei do Ventre Livre (1870) sensibilizou a elite brasileira, que passou a vislumbrar como inevitável a abolição da escravatura, sob pressão sobretudo inglesa. Em 1888 (Lei Áurea) mostrou-se inevitável substituir a mão-de-obra escrava por pessoas livres. Essas, entretanto, deveriam ter o mesmo desespero dos ex-escravos, devendo aceitar condições semi-escravas de trabalho, em terras tropicais.
A Primeira-República brasileira (1889-1930) promoveu um programa agressivo de imigração subvencionada. Passagens marítimas, hospedagem para acolhimento e transporte às fazendas foram providenciados. Fazendeiros, latifundiários criaram a Sociedade Promotora de Imigração, com base em São Paulo, em 1886, sob o lema “Braços para a Lavoura". O período, seus objetivos e instrumentos foram muito bem retratados na obra “Braços para a Colheita", de Cláudia Tessari (2012).
Entre 1884 e 1933, explodiu a imigração européia rumo ao Brasil.
Foram mais de 1,4 milhão de italianos, 1 milhão de portugueses, quase 600 mil espanhóis, mais de 400 mil europeus do leste (Polônia, Rússia, etc.), 150 mil alemães e o mesmo número de japoneses, e quase 100 mil sírios e turcos.
Todo esse contingente de gente desesperada visava construir, no Brasil, um novo lar para sobreviverem. No imaginário desses imigrantes ignorantes e desesperançosos, o Brasil era a única alternativa a uma vida de exploração e miséria deixada para trás, na terra de seus antepassados. Esse contingente imigrante trouxe tradições, cultura, culinária, efetivamente tendo ajudado a edificar o país, mas sem poder de realmente influenciar a mudança na mentalidade extrativa.
Como bem notado por Caio Prado Júnior (em História Econômica do Brasil, 1945), a cultura extrativa do Brasil foi um viés que contaminou não apenas governo, nobres e fazendeiros, mas deu contorno à mentalidade de ocupação do país (extrair e partir).
Celso Furtado (em Formação Econômica do Brasil, 1959) também confirmou o viés extrativo, diferente daquele que definiu a criação de nova sociedade na América do Norte.
O europeu que saiu da Corte portuguesa para colonizar o Brasil, a partir do século 16, não foi o mesmo que passou a vir 3 séculos depois. Os bandeirantes que se embrenharam pelo país descobrindo riquezas não eram o imigrante que fugia para ter trabalho ou um teto sobre a cabeça, no fim do século 19. A base da ocupação brasileira visava encontrar riquezas, extraí-las e partir de volta ao país de origem.
Todas as instituições criadas visavam tal objetivo. O caráter transitório era notório.
O europeu colonizador, e todos os que lhe sucederam internamente no poder (e nas estruturas de poder), jamais pensou na sedimentação de uma nova sociedade em terras tropicais, livre das amarras imperiais, da organização a qual havia lhe enviado para descobrir riquezas e retornar.
Os pobre-coitados que chegaram ao Brasil para substituir escravos antes da virada do século 20 ocupariam um lugar deixado vago pelo fim daquele comércio. Eles não eram “investidores", não traziam nada além dos próprios braços e ventres para trabalharem e povoarem o que a África tinha sido destinada a fornecer.
Notável é constatar-se que os europeus imigrados não haviam sido convidados para mudarem as camadas superiores da sociedade, a elite ou donos do poder. A mentalidade dos donos do país, que lhes acolhiam com desconfiança e preconceito, persistiria em todos os fundamentos e seus intrumentos.
País do passado
Diversamente das prosas românticas, das ilusões projetadas por Gonçalves Dias, Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar, Álvares de Azevedo, Castro Alves, Bernardo Guimarães, ou mesmo Monteiro Lobato, o Brasil real foi começando a ser despido por Mário de Andrade.
O grande mérito daquele autor modernista, em seu Macunaíma: o herói sem nenhum caráter (1928), foi expor de forma satírica as contradições brasileiras, ressaltando a amoralidade do brasileiro em geral, sua malandragem e preguiça. A crítica social banal decorria do evidente imobilismo social em uma sociedade vocacionada ao extrativismo eterno, desmotivacional a qualquer mudança.
Mais do que tudo: Mário de Andrade parece ter claramente identificado, sobretudo no prefácio da primeira edição (que convido aos leitores a buscarem e lerem, posto que reveladora), o necessário fim da romantização do Brasil e a impossibilidade de o país tornar-se civilizado, à européia.
O próprio autor descreveu o objetivo de revelar faceta brasileira, verbis:
Este livro carece dumas explicações pra não iludir nem desiludir os outros. Macunaíma não é símbolo nem se tome os casos dele por enigmas ou fábulas. É um livro de férias escrito no meio de mangas abacaxis e cigarras em Araraquara. Mas foi útil pra mim mostrar uns tesouros que a gente tem e que a gente esquece. O que me motivou de verdade foi minha preocupação constante em descobrir e trabalhar a entidade nacional dos brasileiros. E quando matutava nessas coisas topei com Macunaíma no alemão de Koch-Grünberg. E Macunaíma é um herói surpreendentemente sem nenhum caráter.
O desesperançoso Stefan Zweig fugiu da perseguição nazista em uma Europa que negava absolutamente tudo de positivo e construtivo que gerações haviam edificado, encontrando no Brasil certo refúgio, apenas para alimentar seu delírio.
Em sua obra de 1941, O país do futuro, o gracioso e inventivo escritor judeu austríaco repetiu o romantismo cego de vários que lhe antecederam. Projetou no Brasil um paraíso harmonioso e sem conflitos, ignorando fatos.
O mito perpetuou-se, ufanista e superficial, fazendo com que sobretudo netos daqueles imigrantes que substituiriam os escravos acreditassem no conto de fadas bordado por Zweig. Deram-lhe eco inclusive no além-mar.
Ao trauma de miseráveis europeus almejando sobreviverem nos trópicos, a convite de Senhores de Engenho, somam-se textos românticos apreciados em círculos de uma elite insistente em ignorar a realidade.
Realidade
Ainda hoje, há vários brasileiros, especialmente aqueles viajados e com mais estudos, que piamente acreditam ser o paradigma ideal ao Brasil, a Europa. Sim, a Europa dos bailes em parques de Viena ou da Exposição Universal em Paris, que deixou de existir ainda antes da Segunda Grande Guerra.
A negação do viés extrativista que permeia todo exercício de poder econômico e político brasileiro, desde seus primórdios, é alimentada por gerações, ancorando-se em evidente romantismo, com notório perfil delirante.
Há provas recentes disso.
A eleição de um líder popular, orgulhoso da própria ignorância, que com seu grupo conduz o país nos últimos 24 anos (com pequeno hiato, se compreendida apenas a influência sobre o Poder Executivo), fez renascer em boa parte de herdeiros econômicos e a elite intelectual tropical o nostálgico romantismo do “bom selvagem", lançado por Jean-Jacques Rousseau em sua crítica social.
O autor genebrino ajudou na construção desse mito binário fundado na clara divisão alegórica entre bem e mal, insistindo na falácia dicotômica civilizatória. Lévi-Strauss acabou por seguir na mesma linha, por sua incondicional admiração à vida dos povos tradicionais e evidente desprezo pelos usos e valores urbanóides.
Assim, o homem cru, em estado natural, primitivo, no ideário romântico, deveria não apenas representar interesses do povo, mas ser inerentemente bom, pacífico, em vista de sua pureza e inocência. Isso lhe garantiria ser perdoado sempre por seus pecados, por mais odiosos, posto que isento das maldades e malícias que seriam próprias apenas do colonizador, do europeu... ou em leitura mais recente, do homem branco.
O encantamento da elite nacional com o “bom selvagem” teve seu ápice quando o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, um intelectual egresso da elite quatrocentona, moldado em universidades progressistas, demonstrou incontido fervor pela ascensão do ideal-ídolo ao poder, quando da cerimônia de transmissão da faixa presidencial (2003).
Aquela foi a melhor representação alegórica aludida por Mário de Andrade: o herói sem caráter havia, enfim, chegado ao poder, personificando o mito.
África melhorada
Aos realistas, o Brasil é um país de imensos potenciais naturais e humanos, mas continua sendo uma versão melhorada de países africanos, de onde sua mão-de-obra fundacional, condenada ao não-retorno, foi importada.
A despeito das migrações européias de pouco mais de um século atrás, aqueles que aportaram na Terra Brasilis jamais tiveram chance alguma de alterarem a vocação extrativista do povo e da terra que lhes acolheram.
A estrutura social, econômica e governamental refletem exatamente tal elemento imutável, reafirmado no belo estudo de Alberto Carlos Almeida, denominado “A Cabeça do Brasileiro” (2007).
Fruto de rigorosa pesquisa, no capítulo “Corrupção: com jeitinho parece que vai”, o autor desmonta o mito de que a corrupção seria um problema das elites ou instituições nacionais. Muito pelo contrário: ela encontra-se justificada e arraigada em valores culturais amplamente compartilhados, sobretudo por aqueles de menor escolaridade (identificados diretamente com o famoso “bom selvagem” no poder).
As enquetes do autor informam que a maioria das pessoas não classifica diversos atos como corruptos. Ao serem incapazes de diagnosticarem, de definirem o favorecimento de um parente ou um grupo como corrupção, em detrimento direto da coletividade por malversação de recursos públicos e abuso de poder, os brasileiros admitem tais práticas como sendo absolutamente normais.
E como se diz em direito: não há pena, sem lei. Não sendo proibida, no entendimento geral, que a baderna continue.
A aceitabilidade social da corrupção não é um fenômeno localizado. Ela é geral, ilustrada em diversas formas, desde um carinho no rosto e tapinha nas costas a milhões em cuecas ou reuniões em jatinhos.
Um dos pontos mais interessantes do citado estudo trata do nepotismo.
A despeito de certas leis o proibindo, a grande maioria dos brasileiros acha aceitável beneficiar parentes quando em cargo público, no acesso a recursos que “não são de ninguém". Assim como, para o extrativista do século 16, a América não era de ninguém quando os primeiros portugueses e espanhóis aportaram… da mesma forma permanece a mentalidade quanto ao erário: a ninguém pertence e, quem puder-lhe por as mãos, que se aproprie “pois chegou primeiro”.
A permissão tácita do tráfico de influência entre familiares e ministros do STF - representada por mudança recente de entendimento favorecendo membros atuais da corte - serve como reforço da convicção de serem esses os valores na cabeça do brasileiro.
O extrativismo como representação cultural explica a estrutura social e estatal brasileira atual.
A sociabilidade tropical é traduzida pela ineficácia de regras tornadas vazias.
Princípios previstos na Constituição Federal como moralidade, impessoalidade e publicidade são lindos de se lerem, mas são reiteradamente tornados impraticáveis por toda a sociedade, iniciando-se pelo topo.
Seguir em frente
Ao abandonar o sonho de país europeu do futuro, é possível enxergar que o Brasil é um país africano que vem dando muito certo.
Se comparado a Burkina Faso, Guiné Bissau, Costa do Marfim, República do Congo ou mesmo África do Sul, o Brasil destaca-se por sua pujança e avanço.
Ter à frente do poder a melhor representação do “bom selvagem” cantado em verso, prosa - e, mais recentemente, samba - torna-se fator de regozijo dos oligarcas cujas fotos foram recoloridas, e que lhe dão suporte incondicional, desde que nada mude.
Tudo passa a ser ampliado por ecos midiáticos eficazes que ultrapassam as imensas fronteiras nacionais.
A mitologia do melhor país africano fincado na América do Sul, liderado por Macunaíma, alegra em muito as elites, mundo afora.
Líderes progressistas e acadêmicos festivos, em países desenvolvidos, mas em especial nas antigas potências colonizadoras, comemoram o retorno ao primitivo, a devolução de terras aos puros e inocentes, desde que nada mude em substância.
A orgia de virtude e pureza - em oposição à maldade representada por valores colonizadores, vis por definição - merece comemoração.
O espetáculo de cegueira voluntária, negador dos fatos mais óbvios a qualquer observador honesto e interessado - ainda que denunciado por vozes que foram, ou vão sendo caladas, inclusive por estafa - enriquece e alegra a muitos.
A festa - ou farra - não merece acabar.
A grande maioria, entretanto, permanece onde sempre esteve, desde o censo de 1872: na miséria que desconhece etnia, na ignorância sobre reais algozes e seus atos.

