Aumentando impostos no Brasil: necessidade, escolhas e desinteligência

Há anos se diz o que viria a ser inevitável: sem reduzir o custo da máquina, mais impostos serão necessários. 

Em outras palavras: quebraram o Brasil.



Anunciam-se hoje aumentos de impostos, PIS, COFINS, etc. mas também algo acontecerá com o imposto sobre doação e herança (chamado ITCD em MG). Deve chegar a 12%, pulando muito para cima se avaliada a situação atual, com divisão para federação e estados, buscando melhorar um pouco as contas desses dois (refresco passageiro, prá "inglês ver"). O custeio corrente tem matado as unidades da federação, incapazes, no geral, de investirem em melhorias ou mesmo na manutenção de serviços básicos..

O tal ITCD (vários estados usam nomenclatura parecida a essa) é um imposto chato, antipático, difícil de cobrar e cuja arrecadação, segundo estudos da OCDE - Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, não vale o esforço.

Eu já tinha descrito minha visão algum tempo atrás sobre impostos nesse POST, que teve uma boa leitura à época. Ainda está valendo.

Vejamos a lista da OCDE para países que cobram imposto sobre doação e herança, antes de partir prá uma análise curta:


Ranking
Country
Tax Rate
1
Japan
55%
2
South Korea
50%
3
France
45%
4
United Kingdom
40%
4
United States
40%
6
Spain
34%
7
Ireland
33%
8
Belgium
30%
8
Germany
30%
10
Chile
25%
11
Greece
20%
11
Netherlands
20%
13
Finland
19%
14
Denmark
15%
15
Iceland
10%
15
Turkey
10%
17
Poland
7%
17
Switzerland[1]
7%
19
Italy
4%
20
Luxembourg[2]
0%
20
Serbia
0%
20
Slovenia
0%
20
Australia
0%
20
Austria
0%
20
Canada
0%
20
Estonia
0%
20
Israel
0%
20
Mexico
0%
20
New Zealand
0%
20
Norway
0%
20
Portugal
0%
20
Slovak Republic
0%
20
Sweden
0%
20
Hungary[3]
0%
OECD Simple Average
15%

Ou seja, 15 países cobram ZERO imposto de doação e herança. Não são países miseráveis. São países que entenderam, segundo análises que consultei, que a cobrança desses impostos tende mais a ser populista que efetiva.

Os 40% dos Estados Unidos parecem ser uma imensidão, exagero total, mas quando se vê os detalhes, não é bem assim, começando pela isenção para doações e heranças abaixo de 2,1 milhão de dólares... Para quem fica acima disso há bons planejamentos tributários, o que torna o tal 40% uma quimera.

No Brasil, insiste-se em aplicar esse imposto.

Os estados fizeram devassas ultimamente, após firmado convênio com a Receita Federal para verem quem tinha feito ou recebido doação e deixado de pagar ITCD. Foi bem alardeado na mídia, mas pouco se sabe dos resultados efetivos.

Sabe-se que o custo para cobrar, calcular e receber esses impostos é altíssimo, típico de máquinas estatais ineficientes onde burocratas criam problemas para produzirem soluções caras em busca de justificativas para seus salários e a própria permanência.

Como eu havia dito no post referenciado acima (basta clicar para ler), o Brasil taxa demais as empresas, os empregados e muito pouco as pessoas físicas que recebem dividendos e renda (ou seja, renda ativa ou passiva sem vínculo trabalhista).

Se fosse realmente para solucionar a coisa, bastava o governo reduzir drasticamente os impostos das empresas e pegar pesado com pessoas físicas, por faixas de renda, taxando até 50% como se faz em boa parte dos países da OCDE. O que se quer é empresas ricas, não pessoas, pois empresas ficam, pessoas somem.

Isso estimularia o emprego e desataria o nó da economia brasileira para haver mais investimento.

A compensação viria do imposto sobre dividendos, que são os lucros das empresas distribuídos a seus donos, e que no Brasil são invariavelmente pessoas físicas.

Assim sendo, todo mundo que hoje burla a legislação trabalhista virando pessoa jurídica para engordar um pouco mais a conta, numa simulação fraudulenta entre empregado e empregador, poderia virar empregado, pois seria menos tributado.

Além disso, taxar dividendos e aliviar impostos de empresas estimularia mais mudanças trabalhistas, tornando o assunto terceirização (tratado nesse post, que te recomendo ler) em algo menos importante, pois hoje ele apenas serve devido à distorção fiscal brasileira.

Mas o Brasil quer mudar? Aquele bem informado, sim, quer mudar. 

Os DONOS do Brasil não querem mudar... e veja por quê:

Como país dos empresários, esses desejam manter a tributação das empresas nas alturas, para sonegarem ou acessarem favores incríveis como o absurdo REFIS (único esquema de anistia fiscal gigante jamais visto no mundo, em época de paz), evitando serem tributados na pessoa física, onde estão ricos.

E olha que isso não é papo de comunista. Não sou comunista e estou diametralmente oposto a isso. Sou capitalista, com senso social, mas como ser-pensante-não-puxa-saco-de-poderosos entendo que o estado precisa ter dinheiro, arrecadar, desde que com justiça. 

Justiça fiscal não existe no Brasil, posto que permanece o país das oligarquias. Justiça fiscal é distributiva: tira de quem tem em excesso e ajuda a quem não consegue fechar as contas, além de bancar o estado. Cada um contribui com o que pode.

No Brasil não é assim...

Empregado e empregador pagam uma baba de encargo trabalhista. Além disso a empresa paga também dezenas de impostos e em algumas situações (aliás, muitas) é melhor sonegar, corromper o fiscal, arranjar um contador inventivo (aliás, o próprio governo petista foi inventivo nas contas, dando o grande exemplo de que conta não se faz, se manipula) e ao final, arranjar um bom advogado para defender e esperar, eventualmente, uma anistia, um REFIS ou dar em penhora uma fazenda no interior do Acre que não existe e ficar tudo por isso mesmo...

Já o empresário, recebe livrezinho seu dividendo, não paga imposto algum (pois já foi tributado na empresa...) e assim pode viver com tributação efetiva, de menos de 12% independentemente do valor (do real ao bilhão).

Essa injustiça fiscal, ao meu ver, é a base da desarmonia brasileira, que obriga a todos (até a cabeleireira da esquina) a montar empresa para receber dividendos livres de imposto, ao invés de assumir o que é: profissional autônoma. A pessoa não faz isso porque sabe que vai pagar tanto imposto que é melhor montar uma PJ, ter CNPJ, receber lucros e ficar super-irregular, "legalmente".

A melhor política fiscal advogada por países que tem tecnologia de arrecadação como o Brasil (que é um país avançadíssimo em programas de arrecadação, sistemas de informática, técnicos, etc.) é taxar mais o indivíduo e menos a empresa.

No Brasil é o contrário.

Daí o país ter os percentuais de lucro maiores do mundo por negócio. É claro: paga ao empregado uma miséria, sonega imposto na empresa (para ser anistiado quanto maior o furto) e recebe livrezinho o dinheiro na pessoa física, não devendo mais nada.

Empresários (sérios, faltou dizer) do Brasil: uni-vos. 

Advogai pela mudança no sistema tributário.

Advogai pelo fim do ITCD.

Advogai pela simplificação tributária das empresas.

Advogai pelo fim da isenção de imposto sobre dividendos.

Advogai pela racionalidade e justiça social.

Aí sim viverão num país com futuro, pois a manter-se como está, com tanta distorção, reforçada por tributação errada e excessiva no lugar errado, continuarão vivendo ricos (aqueles que sobrevivem e entendem bem o esquema), mas blindados...








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