Minas não. Veredas. Só assim para superar a maldição.

Após a segunda imensa tragédia humana e ecológica que acomete meu estado natal, a única coisa da qual me convenço é que continuar denominando um estado e seu povo por sua atividade econômica da era colonial é persistir em um erro imenso.

Confesso ter vergonha agora de ser chamado de "mineiro" (aquele que vem de Minas Gerais).

Gostaria muito que o Brasil e o mundo conhecessem minhas origens por outra denominação, por outras referências.

Entendo a atividade mineral e orgulho-me - como quase todos aqueles que são do meu estado natal - de contribuir continuamente para que ela traga prosperidade ao povo do estado e ao país. Só que ela não pode mais ser tão importante como tem sido. Não pode estar no nome de um estado com 20 milhões de habitantes, como se eles fossem reféns de uma atividade da era colonial. Deveria ser projeto do povo a mudança progressiva (plano de 20, 30 anos) tornar-se independente da atividade mineral (ainda que ela persista), do ponto de vista de PIB.

Para mim, é simples assim.

Proponho que o estado mude seu nome de MINAS GERAIS para VEREDAS.

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Veja a foto acima e sinta-se bem ao ver essas veredas verdejantes, que saúdam a vida, promovem o bem-estar exterior e interior. Compare-a às fotos da tragédia de Brumadinho e das minas que se espalham pelo estado, compreendendo o que precisa ser, no imaginário do povo do estado, inerente à sua identidade.

Retirar a precedência da atividade extrativa sobre a natureza e a coletividade parece necessário. Gostaria que os eleitos vissem essa necessidade.

A VALE é uma empresa gigante e, por muitas vezes, motivo de orgulho dos brasileiros. Seu imenso poder econômico traz também pesadas responsabilidades. 

Em um Brasil disfuncional, historicamente vítima de governos disfuncionais e não-representativos do real interesse das coletividades locais, gigantes econômicos arriscam agir sem controle ou fiscalização, gerando sofrimento inclusive aos ligados direta ou indiretamente a eles, como é o caso de Brumadinho.

O poeta Carlos Drummond de Andrade havia demonstrado sua desolação quanto ao caminho escolhido pela antiga CVRD. Drummond, originário de Itabira, conhecia bem os danos da atividade minerária em uma época em que meio ambiente era um mero detalhe. Itabira foi o berço da VALE, que ao retirar RIO DOCE de sua denominação, negou o rio, sua alma e o vínculo à coletividade de seus fundadores.

A maioria esmagadora de funcionários da VALE é gente que contribui sinceramente à empresa e à sociedade. Meus amigos que lá trabalham reconhecem a beleza de estarem contribuindo a um colosso e jamais teriam intenção de lesar a quem quer que seja. Só que a fragmentação decisória e o poder da atividade minerária sobre o Estado ofuscaram a visão dos seus dirigentes e dos políticos, administradores públicos, procuradores do estado e inúmeros outros entes, instituições e pessoas envolvidos ou responsáveis por geri-la e fiscalizá-la.

Infelizmente, a tragédia de Brumadinho engoliu inclusive os próprios funcionários da VALE. Muito provavelmente, os responsáveis pela manutenção e verificação da barragem (confirmado: o funcionário Olavo Coelho meses antes da tragédia tinha alertado seu filho Fernando - que trabalhava na mesma mina - que a represa estaria a ponto de romper e morreu soterrado) que rompeu estavam almoçando no restaurante engolido pela lama semi-sólida.

A comoção provocada pela tragédia repetitiva precisa gerar não apenas punições, palavra que tem se destacado na mídia e manifestações de políticos. Entendo que deve haver uma mudança de POSTURA e propor-se um referendo para alterar o nome do estado para VEREDAS GERAIS ou algo similar, sepultando o nome MINAS.

O imaginário do estado está ainda na época colonial

Meus concidadãos precisam libertar-se dessa sina, dessa maldição. 

J'são muitos fantasmas clamando por mudança. 

Alguns ainda estão soterrados, esperando pelo merecido e honroso sepultamento. Vários outros estão ainda morrendo lentamente por silicose, muitos inclusive vivem próximos à capital...

É preciso ouvi-los.

Esse estado já possui nos serviços sua principal fonte de empregos e renda. 

A atividade minerária não deve, de forma alguma, ser banida ou criminalizada, mas a identidade desse povo não mais deveria estar ligada à atividade extrativa, que custa muito à natureza e à população.

Pode parecer meramente simbólico, mas reitero: não sinto mais orgulho em ser chamado de mineiro. Remeter-me ao abuso e à morte me agasta.

Reconhecer que a mineração trouxe prosperidade, desde a era colonial, é necessário. Só que colocar essa atividade em segundo plano, na realidade e no imaginário desse povo sofrido, parece que traria muitos benefícios.

Não tenho mandato, voz, representatividade ou dimensão pública para fazer nada mais além desse clamor.

É necessário respeitar o povo do estado, aqueles que labutam nas minas, louvando a memória dos escravos arrancados de suas tribos africanas para empurrarem carrinhos de minério nas profundezas de minas que lhes engoliram para sempre.

Em homenagem a descendentes desses escravos, muitos ainda contribuindo para a economia do estado pela via da atividade extrativa, mas também vítimas de silicose ou surdez, chamar esse estado pela sua beleza natural, e não mais pela atividade extrativa, parece ser um dever.

Espero que as mais de 300 mortes diretas por rompimento de duas barragens, nos últimos 3 anos, bem como as demais milhares de vítimas físicas, econômicas e psicológicas da atividade extrativa, não tenham sido em vão.

A VALE pagará certamente um preço caro por sua omissão criminosa, mas ao invés de fazer uma caça às bruxas e buscar culpados, espero ver a importância de reorientar o estado em sua abordagem da atividade econômica. 

A mineração precisa deixar de ser a prioridade dos administradores públicos. Eles precisam focar no futuro.

Quero orgulhar-me de ter minha origem não ligada à atividade extrativa. 

A vida tem uma dimensão muito maior do que arrancar rochas das entranhas da terra, algo que sabemos continuará ocorrendo para nosso próprio conforto e bem-estar, mas gostaria de dar outra dimensão ao sustendo do povo de minha origem.


Veredas podem significar circunstância, momento ou oportunidade.

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