O Brasil quer administradores, advogados e professores
Que ciências exatas o quê!
Que engenharia e medicina, que nada!
O censo recente diz que o brasileiro quer gestores, advogados e... professores!
Veja por si mesmo:
O Sisu nada mais é que um sistema de seleção unificado, onde estudantes aplicam para cursos visando serem admitidos nas universidades Brasil afora. As preferências acima demonstram que, diferentemente de países desenvolvidos, mais notadamente países asiáticos, o brasileiro não quer virar médico ou engenheiro, mas administrador...
Não tenho elementos científicos para interpretar os números acima, mas tenho palpites.
O primeiro deles é: a carreira de administrador é a mais versátil hoje em um país assolado por solavancos econômicos, políticos e sociais. Isso significa que o estudante percebe que, se possuir o título de administrador, seu canudo lhe permitirá trabalhar em uma quase infinidade de indústrias, setores e locais... afinal, todos precisam de alguém para administrar gente e coisas.
O que menos me surpreendeu na pesquisa foi a busca pelo título de bacharel em direito. Afinal, a profissão de advogado é uma das mais adoradas (e mistificadas) no país. A "indústria" das faculdades de direito é a que mais progrediu nos últimos 20 anos, desde que Paulo Renato e FHC privatizaram a educação, iniciando o desmonte das universidades públicas.
O Brasil tem mais de 1.300 faculdades de direito autorizadas a vender sonhos. Em dezembro último, o MEC fechou 38 delas. A grande maioria tem uma qualidade lixenta de ensino, com cursos não-presenciais e outros engodos para cobrar mensalidades dos pobre-coitados dos alunos que fingem que estão aprendendo algo em troca do sonho inatingível de se tornarem doutores.
A OAB abomina tais cursos, mas pouco fez ou faz, já que a maioria desses cursos é promovida por gente importante do meio jurídico, inclusive juízes, membros da magistratura, pois a única exceção permitida constitucionalmente para ganharem algo além dos seus salários é dar aulas... então... a coisa é gerar "fluxo de caixa"... independentemente da qualidade.
Esse engodo dos cursos de direito se traduz nesse SISU... muita gente procura o curso de direito. A maioria esmagadora sequer passará no Exame de Ordem, obstáculo fundamental para impedir que semi-analfabetos apresentem-se como advogados e destruam o direito dos seus constituintes por incapacidade de exercerem a profissão.
A crise no meio jurídico brasileiro é tão séria que, não bastasse a mentira das faculdades fictícias que vendem diplomas, há enorme quantidade de advogados que trabalham mal, apropriam-se de valores de seus clientes, entupindo tribunais de ética com processos disciplinares, deteriorando a reputação da classe Brasil e mundo afora.
Nessa reportagem, fica evidente que o país detém número equivalente à soma de quase todas as faculdades de direito do mundo... ou seja: esse é um país de doutores (com um "d" bem minúsculo...).
Apenas para rir e sorrir, se fosse verdade (ou seja, se a realidade refletisse essa miragem), o Brasil seria o país mais justo do mundo. Nesse país fantasioso, o Império do Direito seria absoluto, o valor da lei seria igual para todos; instituições robustas e fortes não fariam distinção entre o que a pessoa é ou tem. O leitor, pacientemente constatará que, no país dos doutores, a verdade não é bem essa.
Por fim, um alento: muita gente quer virar professor! Os custos de pedagogia são muito procurados. Isso é bom e ruim, ao mesmo tempo.
O lado bom é que sem educadores a pátria não avança. Precisa-se de muito professor, para que o conhecimento seja valorizado e partilhado.
O lado não-tão-bom é que, assim como acontece com faculdades de direito, os cursos de pedagogia andam fraquinhos, sendo facilmente homologados no MEC e atraindo muita gente que almeja o diploma de curso superior. A distorção persiste há muito tempo, e parece que pouco se faz a respeito, pois tem muito interesse cruzado e as universidades públicas continuam desprestigiadas entra-sai governo.
Lembro que um dos pilares de uma sociedade organizada é a educação, além de segurança e saúde.
A partir do momento em que o setor da educação foi entregue à iniciativa privada, sem as salvaguardas suficientes, a mercantilização do ensino deturpou sua finalidade... e o melhor exemplo é o mostrengo chamado Kroton, que mereceria uma bela CPI, já que surfou na onda BNDES, PT, etc...
Para melhor ilustrar a questão, sugiro assistirem a esse vídeo (todo) do Gregório:
Resultado: diplomas e mais diplomas. Papel e mais papel. Só que, de essência, sobra muito pouco.
O Brasil é um lugar fértil, cheio de mentes brilhantes, mas politização e mercantilização do ensino, apropriado por gente errada e corrupta (como GregNews apontam acima), fizeram com que recursos financeiros e tempo seja desperdiçado para alimentar gente poderosa, ao invés de estimular a aquisição do conhecimento e gerar prosperidade sustentável.
Há iniciativas louváveis de resgate da escola técnica, já que o país de doutores provou ser uma quimera, uma perda de tempo.
O Canadá, meu campo de provas preferido, já que conheço em maior detalhe, prima pela excelência na formação primária, secundária e técnica. Quem desejar seguir adiante e aperfeiçoar-se, poderá ir para a universidade, só que ela é para poucos: a maioria, com curso técnico, pode ser dar muito bem na vida e não precisa ficar exibindo diplomas (que jamais usarão).
Objetividade e inteligência no uso dos recursos humanos e financeiros é fundamental para um país progredir.
Entender que o sistema de ensino, e sobretudo o ensino superior, no Brasil, está condenando gerações ao fracasso, à mentira e ao cinismo, será o primeiro passo para parar, mudar o rumo e passar a acertar.
Caso contrário, o brasileiro continuará a ser comprador de produtos concebidos e produzidos no exterior, bem como continuará a ser exportador de matéria prima (minério, etc.) e de produtos agrícolas, jamais subindo na escala de agregação de valor em suas exportações e produção interna.
